Saiba o que significa perder o grau de investimento (de um jeito que até o Tico Santa Cruz entende)

September 13, 2015

 

A crise de 2008 impactou o mundo de uma forma que muitas vezes a gente sequer percebe no dia a dia. E uma delas, através de um negócio fundamental em qualquer economia complexa: a confiança. As 3 principais agências de risco americanas admitiram a seus clientes que foram enganadas por bancos para garantir classificação máxima a ativos de baixo valor (os tais empréstimos subprime). Além de multas bilionárias, tal atitude impactou como nunca a credibilidade do mercado – como investir sem saber quem é confiável virou um grande ponto de interrogação ao redor do mundo. No mesmo ano, a Standard & Poor’s, a maior das 3 agências – aquela que você provavelmente viu em destaque em alguma manchete nas últimas 24 horas – reconheceu no Brasil o mérito pela implementação de políticas bem sucedidas, como o controle da inflação e a criação de um superávit primário, que ajudaram a estabilizar a nossa dívida pública. Tal merecimento rendeu uma inédita classificação ao país – o tal “grau de investimento”.

Mas o que significa exatamente isso? Ao contrário do que boa parte das pessoas possam imaginar, o mercado de ações e títulos não se resume a capitalistas de cartola fumando charuto no alto de um grande prédio comercial. O maior jogador desse mercado são os fundos de pensão, com ativos na casa dos 24 trilhões de dólares. Estes fundos estão disponíveis para investir a médio e longo prazo, e são compostos principalmente por salários de professores, policiais e outros funcionários públicos de países ricos. Acredite, gerir esta montanha de dinheiro demanda muito mais do que sorte. Estamos lidando com as aposentadorias de milhões de pessoas. E é exatamente por isso que ter bons instrumentos para saber onde investir estes recursos é fundamental. E é aqui que entram agências como a Standard & Poor’s: elas dizem onde o seu dinheiro não corre risco de desaparecer, sumir, evaporar, virar pó. Quando as agências falham, o mercado entra em crise.

Em suma, se você espera captar dinheiro de investidores, a primeira forma é garantir que eles possam confiar em você, não é mesmo? Para fazer isso, países e empresas contratam agências de risco, que expõem suas contas e geram avaliações. Aqui, ao contrário do que o senso comum possa sugerir, não se trata de uma empresa que analisa as contas brasileiras para dar palpites na nossa política econômica. As agências são contratadas pelo próprio governo para esse fim. Com a avaliação internacional, o Brasil pode ir ao exterior captar recursos com os juros adequados à sua capacidade de pagamento. Como inúmeros fundos só podem investir em países com esta classificação, isso significa dizer que com a conquista do grau de investimento nós ampliamos imensamente a nossa capacidade de captar recursos. Isso é bom para mim, para você, para o país todo.

Este mercado menor se reflete diretamente no custo de endividar-se. Atualmente, o custo de dívida para países sem grau de investimento, como Rússia e Turquia, chega a ser 20% maior do que aquela paga pelo Brasil para títulos de 10 anos. “Mas e aí”, você deve estar se pergunta, “se nós conquistamos esse grau de investimento, isso significa que já pagamos nossa dívida externa?”. Não, muito pelo contrário. Nossas empresas e o governo brasileiro possuem hoje US$ 343 bilhões em dívidas no exterior. Isto significa que um aumento de juros pode não apenas impedir novas dívidas, mas permitir menos dinheiro para financiar a expansão destas empresas no país. Com juros 3 vezes menor, inúmeras empresas – de empreiteiras a companhias de aviação – utilizam destes recursos para escapar do alto custo de se endividar no Brasil.

E um dos maiores exemplos disso é justamente a Petrobras, que, como vimos aqui, deve vender o possível para garantir investimentos. Com crédito menor lá fora e uma dívida que, apenas neste ano, por conta da alta do dólar, cresceu R$ 70 bilhões, atingindo um valor superior a R$ 415 bilhões, a gigante estatal deve lutar para manter as metas de investimento – mas desta vez tendo de pagar juros maiores e gastando mais com importação de gasolina e outros produtos. Como a propaganda estatal não cansa de repetir, a Petrobras é de fato imensa, impacta algo próximo de 10% da economia e emprega direta e indiretamente milhões de pessoas. E a perda da capacidade de investimento põem tudo isto em risco.

 

“MAS POR QUE O BRASIL PERDEU O GRAU DE INVESTIMENTO E COMO ISSO IMPACTA MINHA VIDA?”

 

Dilma Rousseff é uma presidente em crise. Sua política econômica equivocada ao longo dos últimos 5 anos, levou todo país a mergulhar em uma estagnação – nos últimos 80 anos, essa é a primeira vez que corremos o risco de emplacarmos dois anos seguidos de recessão (como em 1930 e 1931, por consequência da crise de 29). E engana-se quem pensa que já alcançamos o pior cenário: a confiança do investidor continua caindo, atingindo seu menor nível desde que começou a ser medida. Não bastasse, o dólar segue na direção oposta, em alta constante – apesar dos mais de R$ 70 bilhões gastos pelo Banco Central para tentar impedir sua alta por meio de contratos de swap cambial (contratos de cobertura de risco cambial usado por empresas e investidores).

Para escapar da crise, o governo se comprometeu a tomar medidas impopulares e frear o crescimento da dívida e dos gastos públicos. Cortou bilhões em gastos, em áreas como educação e saúde, e aumentou outros bilhões em impostos. Além disso, aumentou também o preço de bens e serviços administrados, como gasolina e energia, além dos juros, para tentar impedir um aumento generalizado nos preços não administrados (aqueles em que o governo não tem poder de decisão). A consequência foi clara: a economia entrou em uma espiral negativa e possivelmente teremos uma recessão de -2% na produção da economia este ano, enquanto países ricos como Inglaterra (que também enfrenta um ajuste fiscal), crescerão sustentáveis 2,5%. Como consequência desta espiral, o governo foi obrigado a admitir que não poderia cumprir sua meta de economizar 1,1% do PIB – reduziu para 0,15%, e prevê para 2016 o primeiro orçamento com déficit primário em décadas.

Se o ajuste colaborou para ampliar os problemas, há de se levantar duas questões. A primeira, se ele de fato ocorre e como ocorre. E a segunda, se ele é realmente positivo.

Em relação à primeira, uma comparação com o ajuste fiscal de 2003, feito por Lula, é esclarecedora. Naquele ano, Lula, o PT e o Congresso estavam do mesmo lado. O discurso era unificado. Estavam todos apoiando as medidas que nos levariam a conquistas como “acabar com a dívida com o FMI”, e mais tarde, como vimos, conquistar o tão sonhado grau de investimento. Agora, o cenário é completamente diferente: o Congresso se recusa a elevar impostos, aprova novos gastos e emperra medidas do ajuste – algo que em boa parte traduz um reflexo da crise política enfrentada por Dilma. O impacto disto é inescapável – o ajuste simplesmente não anda. E foi exatamente isso que a Standard & Poor’s percebeu. O tal ajuste é para “americano ver”. E os americanos não caíram nessa estória.

Em relação à segunda, saber se o ajuste é positivo requer mais do que conhecimento, mas um pouco de imaginação – uma vez que lidamos com expectativas, algo que gera impactos imensos na economia. Se o ajuste falhar e retomarmos as políticas equivocadas dos últimos anos, o que podemos esperar é previsível. E chegar a uma inflação acima de 10% como na Argentina e na Venezuela não é um cenário impossível.

Como vimos, o grau de investimento impacta diretamente na capacidade de investimento das maiores empresas do país – mas vai um pouco além: ele também reflete no dólar, que é o responsável por determinar o preço de bens como soja, milho, petróleo, além de significar uma redução na oferta de carne e outros produtos básicos, uma vez que para as empresas é mais vantajoso exportar com o dólar alto. Assim, a inflação é afetada diretamente pela alta do dólar, e indiretamente pela queda na capacidade de investimento. Ela traduz um menor poder de compra e menos perspectivas para você. E pode ter certeza, perspectiva de futuro importa, e muito.

Mas por último, e não menos importante, precisamos voltar a falar de confiança. “Podemos de fato confiar nas agências de classificação?”, é o que você deve estar se perguntando. A resposta não é tão simples como parece. Erros existem. E os acertos também – e em maior número, evidentemente. Num mercado, porém, onde se arriscam trilhões de dólares por dia, as agências provam ser o mais eficiente mecanismo de contenção de risco. Governos do mundo inteiro, como o do Brasil, e grandes investidores, confiam nelas. Mas aqui, você é livre para escolher quem tem razão: quem arrisca sua fortuna nisso todos os dias, ou aquele comentarista de internet que vai da moda à economia em duas postagens.

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Fonte: http://spotniks.com

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