O que a suposta traição de um vereador tem a nos ensinar enquanto sociedade?


Como jornalista, a primeira lição prática que recebi é de que um fato, de foro íntimo só tem que virar notícia quando se torna um fato social. Eu explico: estala lá eu, com meus 20 anos, voltando da cena de um suicídio quando a editora do jornal me vetou: "André, isso não é notícia! A menos que o defunto tenha caído no meio da rua e isso tenha impactado a todos, isso não é fato. Uma pessoa morta, na banheira de sua casa é assunto de foro íntimo". Jamais esqueci a lição e, desde então, não escrevi sobre questões pessoais, por mais crítico que eu seja.

Mas hoje os tempos são outros e é difícil cobrar das pessoas, de modo geral, o mesmo critério ético que nós jornalistas (pelo menos em tese) precisamos seguir. Estamos na era da pós-verdade onde as versões são mais valorizadas que o fato, e o limite entre o pessoal e o público, simplesmente, não existe. Ontem, na Câmara de Macaé, uma cena ressoou por toda a sociedade como o sino enferrujado de uma capela do interior: a ex-mulher de um vereador invadiu a Câmara (pelo menos esta é a versão que me contaram) e esbofeteou uma das suas assessoras. Foi uma explosão. Nos grupos de Whatsapp não se falava outra coisa. Áudios, áudio e mais áudios! Análises, comentários e até memes sobre a cena de novela das oito. E eu, aqui, no cantinho do meu escritório só conseguia pensar naquele cara morto, num apartamento solitário da Imbetiba: fato social ou íntimo? Impossível teorizar!

O fato é que houve um escândalo e ele foi em espaço público. Por isso, apenas por isso, as pessoas se acham no Direito de falar o que quiser sobre o assunto. Falaram de traição! De escolha de assessores por critérios fortuitos, entre outras barbaridades. Só, que por traz da densa nuvem de julgamentos há três pessoas envolvidas: o vereador, a coitada da assessora cuja honra está em xeque e a ex-mulher. Olhando rasamente as redes sociais dos envolvidos dá para ver que todos eles não são personagens como nas novelas. Eles tem pais, mães, irmãos e até filhos pequenos! Já pensou o filhinho da assessora chegando na escola e sendo apontado pelos amiguinhos? Ah, e a moça também tem marido. Taí uma quarta pessoa cuja honra foi afetada. Se eu fosse um advogado especializado em danos morais já estaria distribuindo meu cartão de visita!

Hoje pela manhã vi tantos absurdos que minha cabeça deu um nó. Teve gente que até usou a imagem do vereador e da assessora com um avatar de apoio a Bolsonaro afirmando que "todo eleitor do Bozo faz merda". Pronto, agora temos a razão dos problemas familiares de todos os 57 milhões de eleitores de Bolsonaro! Pior, todos os 57 milhões de eleitores de Bolsonaro agora são adúlteros. E olha que ninguém sabe ao certo se houve ou não adultério na questão. E se a ex-esposa, simplesmente, teve um ataque de fúria baseado em boatos? E se não houve briga, apenas gritos? E se, na verdade, a causa da separação foi outra? Ninguém sabe! Como eu disse, na era da pós verdade, a versão é mais importante do que o fato.

Como somos podres! Um café amargo pra vocês!


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© 2023 por André Luiz Cabral